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Meio AmbienteTurismo17/06/2025

Caminho da Mata Atlântica: A Maior Trilha do Brasil Conecta Conservação e Turismo Sustentável

Em um marco histórico para o ecoturismo brasileiro, o Caminho da Mata Atlântica (CMA) se consolida como a maior trilha de longa distância do país, percorrendo mais de 4 mil quilômetros através de cinco estados – do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. O projeto, que já tem 900 quilômetros sinalizados, representa uma iniciativa revolucionária que combina conservação ambiental, desenvolvimento sustentável e turismo responsável.

Caminho da Mata Atlântica: A Maior Trilha do Brasil Conecta Conservação e Turismo Sustentável

Projeto histórico de 4 mil quilômetros atravessa cinco estados brasileiros e revoluciona o ecoturismo nacional

Em um marco histórico para o ecoturismo brasileiro, o Caminho da Mata Atlântica (CMA) se consolida como a maior trilha de longa distância do país, percorrendo mais de 4 mil quilômetros através de cinco estados – do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. O projeto, que já tem 900 quilômetros sinalizados, representa uma iniciativa revolucionária que combina conservação ambiental, desenvolvimento sustentável e turismo responsável.

A Primeira Pessoa a Completar o Trajeto

A argentina Julieta Jazmin Santamaria, de 26 anos, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa a percorrer todo o Caminho da Mata Atlântica. Em uma jornada épica que durou 15 meses no total, com 195 dias efetivos de caminhada, Julieta iniciou sua aventura em fevereiro de 2024 e a concluiu em 7 de junho de 2025, caminhando desde o Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro, até o Parque Nacional de Aparados da Serra, em Cambará do Sul, Rio Grande do Sul.

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"Soube do Caminho da Mata Atlântica em novembro de 2023 e fiquei muito animada, senti algo que nunca senti. Alguma vez me disseram que não é você quem chama a trilha, é a trilha quem chama você, e realmente é algo em que eu acredito", relata Julieta, que inicialmente planejava uma viagem de bicicleta pelo nordeste, mas mudou completamente seus planos em três dias após conhecer o projeto. Sua preparação durou de novembro de 2023 a fevereiro de 2024.

A aventureira argentina enfrentou desafios únicos durante sua jornada. No Vale do Ribeira, seguiu trilhas de porcos para encontrar caminhos inexplorados. Em São Paulo, precisou da companhia obrigatória de monitores ambientais da Fundação Florestal. No Paraná, enfrentou as montanhas mais altas do trajeto, incluindo o Pico Paraná, em uma trilha memorável com nove pessoas.

"Eu ouvi muito do perigo, do perigoso que é caminhar no Brasil, mas nesses 4 mil quilômetros não tive nenhuma situação de risco", destaca Julieta, que dormiu na rua diversas vezes e foi acolhida por comunidades locais. "As pessoas maldosas fazem barulho, mas há muito mais pessoas boas no mundo."

Um Sonho que Virou Realidade

O Caminho da Mata Atlântica nasceu de uma ideia apresentada em 2012 durante o VII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação pelo biólogo Ernesto Viveiros de Castro, então gestor do Parque Nacional da Tijuca. Inspirado na famosa Appalachian Trail norte-americana, o projeto ganhou vida através do movimento Borandá, uma iniciativa do WWF-Brasil junto com outras 13 instituições.

"O caminho sempre foi voluntário, com pouca verba. Dessa vez, fizemos um esforço financeiro de alguns projetos e, pela primeira vez em toda a história do Caminho da Mata Atlântica, estamos fazendo um encontro presencial geral de todos os voluntários", explica Francisco "Chico" Schnoor, coordenador geral do projeto.

A trilha começou a sair do papel efetivamente em 2016, com a sinalização dos primeiros trechos em Paraty e na estrada entre Morretes e Antonina, no Paraná. Em 2020, foi eleita a atual comissão de governança, momento em que Chico assumiu a coordenação geral.

Reconhecimento Internacional

Em 2020, o Caminho da Mata Atlântica foi escolhido pelo jornal New York Times como um dos 52 melhores destinos para viagem no mundo, colocando a trilha brasileira no mesmo patamar de destinos icônicos como Machu Picchu, Taj Mahal e o Louvre. Infelizmente, a pandemia de COVID-19 impediu que o projeto aproveitasse plenamente esse reconhecimento internacional.

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Estrutura e Organização

O Caminho está organizado em 15 núcleos de planejamento e articulação voluntária, cada um com 200 a 300 quilômetros de extensão. O maior deles é o Vale do Ribeira, que se estende do portão do Jurupará, em Juquitiba, até a divisa com o Paraná. Atualmente, já foram sinalizados mais de 900 quilômetros da trilha, permitindo que aventureiros percorram diversos trechos com infraestrutura mapeada.

"Tem pessoas que estão fazendo o trecho do caminho há 10, 15, 20 dias, que começam no meio do caminho, acabam no meio do caminho, mas fizeram um trecho da Mata Atlântica", explica Chico. A trilha cruza mais de 130 áreas protegidas, incluindo 10 parques nacionais e 32 parques estaduais, formando um grande corredor ecológico.

Quatro Pilares Fundamentais

O projeto está estruturado em quatro componentes principais:

  1. A Trilha: Implementação física do caminho com sinalização adequada e treinamento de voluntários para manutenção.
  2. Engajamento: Sensibilização da sociedade através de ações de voluntariado e monitoramento participativo da biodiversidade.
  3. Cadeia Produtiva: Fortalecimento do turismo sustentável, agroecologia e geração de renda para comunidades locais.
  4. Biodiversidade: Criação de um grande corredor florestal que conecta fragmentos da Mata Atlântica, permitindo maior resiliência da fauna e flora.

Impacto na Conservação

A Mata Atlântica, reduzida a cerca de 16% de sua extensão original, enfrenta pressões constantes devido ao adensamento populacional. O Caminho surge como uma solução inovadora para conectar grandes remanescentes e pequenos fragmentos florestais.

"Se conseguirmos a façanha de conectar tudo isso num grande corredor, já permitimos uma resiliência maior à fauna e flora da Mata Atlântica, porque os animais podem migrar para lugares mais quentes ou mais frios, dependendo das mudanças climáticas", explica o coordenador.

O projeto criou um "buffer de biodiversidade" de 10 quilômetros para cada lado da trilha (20 quilômetros no total), desenvolvido por especialistas da UFRJ. Atualmente, o Caminho já vem restaurando 500 hectares de Mata Atlântica no extremo norte da Serra do Mar.

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Experiência Diversificada

O Caminho oferece uma diversidade única de experiências, passando por montanhas, praias, paisagens da Ilha de Santa Catarina (SC), Ilha do Mel (PR), Ilhabela (SP) e Ilha Grande (RJ). A trilha incorpora caminhos históricos como o Caminho do Itupava (PR), os Caminhos do Mar (SP), o Caminho de Mambucaba (RJ) e a Trilha Transcarioca (RJ).

Ciclismo e Modalidades Alternativas

Além das caminhadas, o projeto contempla outras modalidades. Segundo pesquisas, cerca de 73% do caminho pode ser feito de bicicleta, como demonstrou Alex Galton, ciclista canadense de Montreal que percorreu a trilha de forma discreta em 2023, adaptando os 27% restantes com rotas alternativas.

Encontro Nacional Histórico

Em agosto de 2025, acontecerá em Bertioga o primeiro encontro presencial nacional de todos os voluntários do Caminho da Mata Atlântica, no Sesc Bertioga. O evento será um marco histórico, reunindo pessoas dos cinco estados por onde a trilha passa para discussões sobre governança, oficinas e saídas de campo.

Governança Participativa e Desenvolvimento Local

O projeto prioriza a governança participativa, respeitando as características culturais locais. "Cada região tem uma cultura em relação à trilha, ao montanhismo. Tem lugares que gostam de fazer uma sinalização mais rústica na madeira, tem lugares que preferem plaquinha, tem lugar que faz com spray", explica Rafael, voluntário do projeto.

A iniciativa busca sempre fortalecer a economia local. "Quando pensamos em implementar, damos renda para a comunidade onde o caminho passa", enfatiza Chico. O projeto já fortaleceu três roteiros de agroecoturismo e quatro roteiros de turismo de base comunitária.

Monitoramento Científico

O Caminho conta com parceria formal com a UFRJ e Fiocruz para pesquisas de biodiversidade. Utiliza-se o aplicativo SISS-Geo (Sistema de Informação em Saúde Silvestre) para ciência cidadã, uma ferramenta desenvolvida pela Fiocruz em parceria com o Laboratório Nacional de Computação Científica, onde voluntários registram fauna e flora encontradas. Desde 2018, pelo menos cinco voluntários do Caminho da Mata Atlântica tiveram descobertas científicas importantes.

Perspectivas Futuras

O projeto prioriza a compra de mudas em viveiros locais, mesmo quando isso representa maior custo. "Se eu no Rio de Janeiro comprar uma muda do Paraná, ela com o frete está mais barato que comprar no viveiro da cidade. Mas fazemos questão de comprar no viveiro da cidade", explica Chico.

A razão é dupla: valorização da cadeia produtiva local e preservação da diversidade genética, já que viveiros locais respeitam a matriz original das sementes, tirando no máximo 30-40% das sementes de cada árvore matriz.

Viveiros Locais e Sustentabilidade

O projeto prioriza a compra de mudas em viveiros locais, mesmo quando isso representa maior custo. "Se eu no Rio de Janeiro comprar uma muda do Paraná, ela com o frete está mais barato que comprar no viveiro da cidade. Mas fazemos questão de comprar no viveiro da cidade", explica Chico.

A razão é dupla: valorização da cadeia produtiva local e preservação da diversidade genética, já que viveiros locais respeitam a matriz original das sementes, tirando no máximo 30-40% das sementes de cada árvore matriz.

Mobilização Local em Tapiraí

O Caminho da Mata Atlântica também está mobilizando comunidades locais ao longo de seu trajeto. Na noite de 15 de junho de 2025, aconteceu um importante encontro na Pousada Lago 7 Cores, em Tapiraí, com a presença da AMATA (Associação dos Monitores Ambientais Autônomos de Tapiraí) e outros stakeholders locais.

O encontro teve como objetivo fortalecer o núcleo Vale do Ribeira, o maior núcleo de planejamento e articulação voluntária do Caminho da Mata Atlântica, que se estende do portão do Jurupará, em Juquitiba, até a divisa com o estado do Paraná. Durante a reunião, foram discutidas estratégias para implementação do projeto na região, mapeamento de parceiros locais e definição de traçados alternativos para trechos ainda não consolidados.

"A gente está trabalhando com isso. É até o projeto que eu fui com a Lara escrever, conseguir o orçamento com o Comtur, com a Prefeitura Local e com empresas locais operando", explicou Chico Schnoor durante a apresentação, referindo-se aos esforços para viabilizar passagens seguras pela região de Tapiraí.

Com mais de 3 mil voluntários cadastrados e crescente interesse internacional, o Caminho da Mata Atlântica representa uma nova forma de fazer conservação no Brasil. A jornada pioneira de Julieta demonstrou que o projeto é viável e inspirou muitas outras pessoas a participar dessa iniciativa única.

"Qualquer sonho nosso está nos esperando. Quando a vontade é forte, as coisas se encaminham naturalmente para dar certo, mesmo que tenhamos que enfrentar dificuldades e contratempos", reflete Julieta, que planeja escrever um livro sobre sua experiência.

O Caminho da Mata Atlântica não é apenas uma trilha – é um movimento social que reconecta pessoas, florestas e áreas protegidas, provando que conservação e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos rumo a um futuro mais sustentável.


Para mais informações sobre o Caminho da Mata Atlântica, acesse: www.caminhodamataatlantica.org.br

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